domingo, 5 de setembro de 2010

Arenas-2014 valem 8 vezes os recursos anuais de habitação e o quádruplo de saneamento

Folha Online
Quando a Copa-2010 se desenrolava, as chuvas destruíram 14.316 casas em Pernambuco. Quando o Mundial-2014 acontecer no Brasil, o governo do Estado terá assumido gastos para construir um estádio que seriam suficientes para recuperar todas as moradias, com sobras.
Financiada pela União, a renovação das casas atingidas na tragédia custa, em média, R$ 30 mil. A verba estadual para a Arena Capibaribe, que terá empréstimo federal, é de R$ 464 milhões, mais de 15 mil vezes o valor de uma moradia.
Essa prioridade ao Mundial é verificada em comparação feita pela Folha entre orçamentos de oito Estados e do Distrito Federal e seus projetos de arenas.
Amazonas, Bahia, Distrito Federal, Mato Grosso, Minas Gerais, Pernambuco, Rio de Janeiro, Ceará e Rio Grande do Norte investirão R$ 4,831 bilhões em seus estádios.
Esse dinheiro representa oito vezes o que os nove governos gastaram com habitação em 2009 --R$ 589 milhões. Ou seja, se mantiverem esse nível de investimento, os governos estaduais usarão para construir casas à população até 2014 a metade do dinheiro das arenas.
Há a necessidade de 5,8 milhões de habitações no Brasil, diz o governo federal.
O total de dinheiro estadual investido nessas nove arenas é ainda igual a quase quatro vezes o investimento em saneamento básico em 2009 --R$ 1,269 bilhão.
Mantida a média de gastos, os nove governos terão utilizado no Mundial valor próximo a todo o dinheiro destinado às redes de esgotos e água até 2014.
Um quarto das famílias brasileiras ainda não tem acesso ao saneamento básico, segundo dados federais.
Os recursos das arenas públicas brasileiras também se equipara a quatro vezes o investimento em gestão ambiental desses Estados em 2009 --R$ 1,170 bilhão.
Ou seja, até o Mundial-14, os nove governos devem gastar o mesmo valor com estádios e para preservar e recuperar o meio ambiente.
Estudo da Academia Nacional de Ciência dos EUA apontou o Brasil como líder de desmatamento na primeira metade desta década.
As sedes dos jogos da Copa custarão o mesmo que 13 anos de investimento dos nove Estados em esporte e lazer --instalações esportivas para a população-- em 2009.
Nos Jogos de Pequim-2008, o Brasil foi o 23º no quadro de medalhas e conquistou três ouros. Posicionou-se atrás de países como Etiópia, Belarus e Ucrânia.
Os números dos orçamentos estaduais são do Tesouro Nacional. Alguns Estados alegam que certos dados não incluem todos os seus gastos em determinado setor, pois excluem, por exemplo, as folhas de pagamentos.
Mas é fato que as informações mostram um retrato do investimento em cada área.
Assim como é uma demonstração da prioridade dada à Copa o fato de todos os empréstimos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para obras de estádios terem o status de especial, sem enfrentar fila.
Ao mesmo tempo, só 66 casas foram entregues aos desabrigados em Pernambuco. Outros desalojados esperam e recebem R$ 150 por mês para pagar aluguel.

Do Blog: É VERGONHOSO. O que pode haver de mais importante do que moradia digna e saneamento básico, o principal quando se pensa em saúde pública? Só mesmo este país de governantes corruptos e incompetentes para investir tanto dinheiro onde será desviado para tantos bolsos famintos e ambiciosos. Não se trata de ser comtra a Copa no Brasil e sim uma questão de prioridade. O que é mais importante: casa e saúde ou futebol pela TV? Atendam as necessidades básicas da população e depois façam a Copa. Porque Lula não se empenhou tanto assim para dar casa e saúde ao povo como se empenha e chora (lembram que chorou pateticamente na cerimônia de escolha da sede)para trazer a copa ao Brasil. VERGONHA.

sábado, 4 de setembro de 2010

A razão da paixão

Estadão
Um jogo fácil de entender e que nos lança num encontro com nós mesmos quando crianças. E assim vamos amando o futebol
Foi na Copa de 1978. Os Kupers, britânicos, viviam na Holanda, e o pequeno Simon, de 8 anos, amava o time laranja de Cruyff acima de todas as coisas. Mas quando os holandeses fizeram 5 x 1 sobre os austríacos ele deixou a sala aborrecido e foi chutar bola no quintal. "Que graça poderia ter um jogo tão fácil?", ele diz hoje, cavucando em suas lembranças futebolísticas mais remotas. Simon Kuper ainda não sabia: tentar enxergar o mais apaixonante dos esportes com olhos desapaixonados se tornaria algo importante para ele.
Kuper é um racional por dever de ofício. Historiador saído dos bancos de Oxford e graduado em política e economia em Harvard, por muito tempo seu negócio foi escrever na imprensa sobre as delícias do câmbio. Entediou-se. Atualmente assina uma coluna de futebol, só que no Financial Times. Aos 41 anos, continua, pois, a ver o jogo como o menino pouco dado ao sacode das goleadas. Disso nasceu Soccernomics, seu livro com o economista Stefan Szymanski, professor da Cass Business School, de Londres. Trata-se de uma análise racional, posto que econômica, do futebol mundial. Pode impacientar os apaixonados das arquibancadas, contudo trabalha os números de maneira surpreendente. A impressão é a de que, para Kuper e Szymanski, tudo no futebol tem
Ninguém melhor que um deles, portanto, para jogar alguma luz sobre a paixão por esse esporte. O que significam 100 mil pessoas nas ruas para celebrar não a maior das conquistas, mas o aniversário de 100 anos de um time? Há racionalidade por trás disso ou só um bando de loucos, loucos por ti, Corinthians? É Kuper quem responde na entrevista a seguir.

Por que somos apaixonados por futebol? O que esse esporte tem que os outros não têm?
Eu amo críquete também! A diferença é que o futebol é um jogo tão fácil de entender que as pessoas o acompanham mais de perto. Além disso, tudo gira em torno de clubes muito antigos - Corinthians, Manchester United, Ajax. A ligação com o passado torna nosso sentimento pelo esporte algo muito profundo. Os times são parte de nossas vidas, ficam conosco do berço ao túmulo. Não há nada comparado no críquete ou no tênis, e não há clubes tão antigos no basquete. Um time de futebol proporciona a sensação de continuidade. Nós crescemos, ficamos velhos, perdemos amigos, trocamos de emprego, vamos mudando ao longo da vida. Mas quando somos adultos a única coisa que nos conecta à pessoa que éramos quando tínhamos 8 anos é nosso time de futebol. O Corinthians estará sempre lá, vestindo as mesmas cores. Essa ideia de continuidade nos conforta.

É uma posição bastante emocional, e de certo modo contrária ao que há em Soccernomics. Ele é razão pura e fria. Não existe razão demais no futebol hoje em dia?
É possível ser muito emocional em relação ao futebol, sentir-se feliz quando seu time vence ou quando você vê o Messi fazer uma jogada bonita, e ao mesmo tempo pensar o futebol racionalmente. Em Soccernomics eu e Stefan Szymanski (coautor), que é economista, tentamos analisar o jogo por esse viés, o que não diminui nosso amor pelo jogo. Somos capazes de mostrar com estatísticas que os técnicos são menos importantes do que se pensa e os salários dos jogadores por si só determinam quase inteiramente os resultados numa temporada. Os técnicos são ferramentas de marketing. Stefan estudou as contas de 40 clubes ingleses entre 1978 e 1997 e descobriu que os gastos com salários explicam 92% da variação deles na tabela de um campeonato. Em suma: a equipe que mais paga, ganha.

Mas o que as estatísticas acrescentam para o torcedor que só quer ter uma tarde agradável vendo seu time jogar? A graça do futebol não está no fato de ele ser um esporte com as portas abertas para o imprevisível?
É verdade que as estatísticas sobre o que os jogadores fazem em campo não ajudam em muita coisa. Quantos quilômetros um jogador corre ou quantas divididas um zagueiro vence não são bons medidores de sua qualidade. O italiano Paolo Maldini quase nunca dividia a bola com o adversário, mas ele foi um zagueiro brilhante. Então, a sabedoria não está nessas estatísticas de dentro do campo. Mas pode ser importante saber que o sucesso de um clube na temporada não está necessariamente ligado ao valor que ele gastou em transferências de jogadores. Ou que é irracional esperar que a Inglaterra vença uma Copa do Mundo, porque os números mostram que a Inglaterra é só um país de porte médio no futebol. Muito do futebol é previsível, por isso as estatísticas têm muito a nos dizer - exceto as de dentro do campo.

Os corintianos gostam de achar que o Corinthians é um time diferente, especial. O clube ficou 22 anos sem um título e a torcida cresceu. Em 1976, 70 mil torcedores rodaram 400 quilômetros e tomaram o Rio de Janeiro só para ver uma semifinal de campeonato. Na última terça-feira, mais de 100 mil foram às ruas celebrar o centenário do clube. Dá para explicar isso racionalmente?
Primeiro, os fãs de futebol não são atraídos simplesmente pelos times vencedores. O que as pessoas gostam é de um time com uma história colorida e, acima de tudo, se podem vê-lo jogar em um estádio prazeroso e seguro. Quando os clubes europeus constroem um estádio novo legal - como o Ajax fez anos atrás - os fãs aparecem. Se o time vai vencer ou perder é menos importante. Os torcedores são atraídos pela imagem do clube, o status dele como símbolo de uma cidade ou comunidade. Se só os times vencedores tivessem torcedores a maioria dos estádios do mundo estaria sempre vazia. Depois, é impressionante essa lealdade dos brasileiros a equipes esportivas em se tratando, como dizem os sociólogos, de uma sociedade "desconfiada por natureza". Os brasileiros não confiam em organizações comunais e isso talvez explique por que atualmente eles não se reúnem em grande número para fazer coisas nessa área. Não é uma sociedade em que as pessoas compartilham. No entanto, os fãs do Corinthians parecem se sentir ligados uns aos outros de alguma maneira. Vai ver, no Brasil, os clubes de futebol são vistos como as únicas organizações comunais confiáveis.

O lance mais polêmico da última Copa foi o gol mal anulado da Inglaterra contra a Alemanha. Voltou-se à discussão sobre o uso de equipamentos eletrônicos capazes de impedir injustiças como aquela. Tornar o futebol mais justo o tornaria menos apaixonante?
O futebol é fantasticamente popular. Como produto comercial, funciona. Não é à toa que tenha mudado tão pouco nos últimos cem anos. Ele não está quebrado, por isso, no entender da Fifa, não precisa de conserto. Eu, particularmente, não acho que, mais justo, o futebol fique menos interessante. Imagine o suspense para as 80 mil pessoas no estádio esperando para saber se aquele gol valeu ou não, até que a tecnologia dê o veredicto. Seria demais!

Recentemente você escreveu que sediar uma Copa do Mundo não traz dinheiro, traz felicidade. Por que o futebol nos faz felizes?
Sediar uma Copa significa dividir um grande projeto com seu país, significa fazer parte. Quando o Brasil receber a Copa em 2014, meses antes todo mundo na escola, no trabalho, no ponto de ônibus estará falando sobre ela. As pessoas conversarão de futebol com estranhos. Elas se sentirão unidas e mais próximas umas das outras. Mesmo se o Brasil perder todos os brasileiros permanecerão juntos, na tristeza. Portanto, há um sentimento comum muito forte quando um país recebe a Copa do Mundo. Um sentimento difícil de encontrar em outras ocasiões. É esse sentimento de união, que atrai inclusive os solitários, o grande benefício para quem sedia uma Copa.

Por que o futebol brasileiro acende tantas paixões mundo afora?
Isso está ligado às lembranças que nós estrangeiros temos das seleções brasileiras de 1958, 1970 e 1982. Há uma expectativa em toda Copa do Mundo de seremos sortudos o bastante para ver o Brasil jogar bonito. Eu não acho que isso vá acontecer mais. Jogar bonito tem a ver com os dribles. Só que o esporte mudou. Em 1970, um jogador corria em média 4 quilômetros numa partida. Hoje ele corre 10. Então, agora se você dribla um zagueiro ele simplesmente se vira e corre atrás de você. Os grandes espaços que Pelé e Garrincha encontravam para jogar não existem no futebol moderno. Jamais voltaremos a ver aquele futebol. Ele foi produto de uma era em particular.

Futebol é coisa de homem?
Está mudando. O futebol feminino é o esporte que mais cresce no mundo. Na América do Norte as mulheres gostam mais do que os homens. Não existe algo necessariamente masculino no futebol. É que na Europa e na América Latina ele sempre foi definido como "jogo masculino" e as mulheres foram excluídas de jogar ou torcer. Países como Austrália e Estados Unidos perceberam que se trata de um esporte leve e as garotas também podiam praticá-lo.

Estamos falando de um esporte que pode terminar sem vencedor e cujo espectador pode ir para casa sem ver o auge do jogo, o gol. Você acredita que um dia os americanos vão se apaixonar por algo assim?
Eles já estão. O número de americanos que viram a Copa pela TV foi 50% maior do que no Mundial de 2006. O jogo Estados Unidos x Gana teve a mesma audiência média das finais do beisebol ou do basquete profissional. É um mito que haja algo na cultura americana contra o futebol. Os americanos apenas desenvolveram antes seus próprios esportes, e isso foi um obstáculo ao crescimento do futebol nos Estados Unidos. Mas agora, graças à TV a cabo e aos imigrantes latinos, o futebol está crescendo muito rapidamente. Não estamos longe do dia em que os Estados Unidos se tornarão campeões mundiais. Olhe para o desempenho deles nos últimos anos: quartas de final da Copa do Mundo de 2002, final da Copa das Confederações de 2009 e quase quartas de final da Copa do Mundo em 2010. No ranking da Fifa eles estão logo abaixo dos dez melhores. Dado que os americanos só começaram a praticar futebol com mais ênfase nos anos 80 e a Major League Soccer tenha sido fundada há tão pouco tempo, em 1996, acho que eles estão cada vez melhores.

E qual a relação dos árabes com o futebol?
Em muitos países árabes não há outras maneiras de os homens jovens se divertirem. Na Líbia você não pode se encontrar com uma garota para tomar um drinque ou ir ao cinema. Então, grandes jogos de futebol por lá atraem 100 mil pessoas. Frequentemente, em países fechados o único lugar onde você pode se expressar, gritar o que bem entender, é um estádio de futebol. Era assim no Iraque de Saddam Hussein. Acho que nenhum país permanecerá imune ao futebol por muito tempo. Até a Índia, a última fronteira desse esporte, já gosta de futebol. Eles ainda pensam muito no críquete, é verdade. Mas outro dia o Maradona arrastou multidões ao desembarcar em Calcutá.

Futebol é o ópio do povo?
Nem sempre. Nas pesquisas para meu outro livro, Soccer Against the Enemy, eu encontrei ditadores que tentavam usar o futebol para distrair as pessoas dos assuntos políticos. Mas também encontrei pessoas usando o futebol para se rebelar contra ditadores. Na Líbia cantam slogans anti-Kadafi nos estádios. No Irã, depois de uma partida da seleção nacional, torcedores tomaram as ruas e enfrentaram a Guarda Revolucionária com palavras de ordem contra o regime. O futebol mobiliza multidões e elas são difíceis de controlar.

Tenho um amigo que gosta de dizer que o futebol é a coisa mais importante entre as menos importantes. O que você acha?
Eu concordo. No final das contas o futebol realmente não tem importância. Você pode chorar quando seu time perde, mas é crucial entender que há coisas mais importantes na vida - seus filhos, sua mulher, seus amigos. Futebol é divertido por ser um jeito de deixar os seus problemas pra trás. Eu não gosto quando algumas pessoas tomam o futebol por uma questão de vida ou morte.

Pensador alemão diz que pessoas se viciam em tecnologia como em heroína

Folha de São Paulo
A sociedade do espetáculo do pós-Guerra se transformou hoje na sociedade da sensação, mergulhada num excitamento contínuo de efeito similar ao das drogas.
Essa alarmante tese high tech é defendida pelo filósofo alemão Christoph Türcke, que estará em São Paulo na semana que vem para lançar os livros "Sociedade Excitada" e "Filosofia do Sonho".
Se o marxista francês Guy Debord atacou o consumismo em sua obra pioneira de 1967 ("A Sociedade do Espetáculo"), Türcke defende que o aprofundamento da revolução tecnológica, no final do século 20, provoca um frenesi viciante de "choques" imagéticos e visuais.
"Trata-se de injeções sensuais", afirma na entrevista abaixo à Folha.
Assim como as drogas evoluíram em potência --do ópio para a morfina e heroína, das bebidas fermentadas para as destiladas--, a "metralhadora audiovisual" contemporânea provocou um aumento de dependência por parte de seus "usuários".
"Isso é o que chamo de distração concentrada."
Herdeiro da Escola de Frankfurt, que fundia marxismo e psicanálise, Türcke conclui que a sociedade da sensação se materializa no fetiche. Pois, diz, "fetiches são sintomas de abstinência, substitutos de algo de que se foi dolorosamente privado"
Folha - O conceito de "sociedade da sensação" não é intelectualista demais?
Christoph Türcke - Pelo contrário. Parte de um ponto de vista sensualista, para não dizer fisiológico.
Avalia como a máquina audiovisual, que emite seus choques imagéticos 24 horas por dia, se impõe ao sensório humano. Tais choques, que se vive com cada nova focagem de câmara, têm o efeito de injeções sensuais.

Como assim, injeções sensuais?
Qualquer corte imagético, qualquer nova focagem, tem o caráter de um projétil, como diz Walter Benjamin [1892-1940]. Penetra no espectador abruptamente, desencadeando uma dose de adrenalina.

Como o vício define a sociedade da sensação?
Vício como fenômeno particular --como dependência física de certas substâncias (drogas)-- está modificando um fenômeno geral, pois a máquina audiovisual também vicia.
Quem presta atenção à tela se dedica a ela, vive uma dependência crescente dela, vincula suas expectativas, sua economia emocional e intelectual a ela.
Assim como o drogado aplica injeções de heroína, uma sociedade que depende da tela se expõe a bilhões de choques imagéticos.
O choque singular é mínimo, quase imperceptível e não faz mal. Bilhões, no entanto, destroem justamente a atenção que elas atraem magneticamente.

Então, em um mundo conectado como o atual, as pessoas estão virtualmente viciadas?
O vício é real. Surge em organismos físicos, não num agregado de pixel.
O mundo virtual tem sua própria realidade, uma realidade prepotente, mas por outro lado fraquíssima, muito fugaz, não consistindo senão numa constelação de impulsos eletrônicos. Ao desligar a eletricidade a virtualidade inteira desaparece.

Citando Trótski, o sr. propõe uma relação íntima entre igreja, cinema e álcool. Qual a razão disso?
Trótski não percebeu o alcance da sua própria observação. O vício tem um subtexto teológico. Cada nova injeção atua como promessa.
O viciado quer cada vez mais, é insaciável, pois quer viver "o inédito", que o vem salvar. Igreja, cinema, botequim: todos os três nutrem expectativas de salvação, cada um deles à sua maneira.
O ateu Trótski tentava tirar a classe operária da aguardente ao reuni-la no cinema. Era a sua igreja.

O sr. diz que, com a invenção do destilado, destruiu-se a cultura do beber e também que a vitória da morfina e da heroína sobre o ópio mudou o padrão do "frenesi", devido à multiplicação do efeito tóxico. Quais as implicações disso para a sociedade contemporânea?
Quanto mais forte, mais rápido o efeito. As drogas desenvolvem-se segundo as necessidades gerais de aceleração.

Então novas drogas, tanto químicas quanto "tecnológicas", deverão necessariamente se desenvolver?
Se forem lucrativas, sim.

Parafraseando o "Manifesto Comunista", de Marx e Engels, o sr. afirma que as pessoas não suportam "o peso da sobriedade". Essa é uma característica da sociedade da sensação?
É. Marx e Engels não eram ascéticos, mas apostaram no domínio da razão sóbria, isenta de qualquer ópio físico ou metafísico.
Eram, em outras palavras, racionalistas ilusionistas, subestimaram o homem enquanto ser pulsional que nunca vai se livrar de todas as expectativas de salvação.
Não adianta recalcar tais expectativas, trata-se de lidar com elas de modo racional e reflexivo. Mas o sensacionalismo de hoje não dá espaço a tal reflexão. A metralha audiovisual torna o desvio o caminho principal.

Então a "metralhadora audiovisual" liquida a perspectiva de alguma salvação?
Não necessariamente. Não vivemos num mundo predeterminado. O livre arbítrio não está liquidado. As forças dominadoras sempre provocam forças de resistência, tanto em termos educacionais quanto sociais. A história continua em aberto.

O sr. é um crítico da "dupla estratégia" do Greenpeace, de criticar e condescender? Qual a implicação disso para o movimento ambientalista?
Constato, não critico a "dupla estratégia".
Observo, porém, que ela sempre indica fraqueza social. São minorias que têm necessidade de usá-la.
Organizações não governamentais como o Greenpeace agem sob as mesmas coações comerciais que as grandes empresas.
Elas têm que colaborar com forças sociais que, ao mesmo tempo, estão combatendo. Não escapam da ambiguidade. Entretanto, isso de nada serve se não arriscar o ambíguo.

A vida é sonho?
Seria bonito. Mas não é assim. A vida é um conjunto de vários estados. Um deles é o sonho. Representa o subsolo da nossa vida, É a massa de fermentação de todos os nossos desejos, planos, projetos.
Ninguém aguenta a vida sem sonho. Sem sonho não há esperança, não há humanidade.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Opinião: Cega, Dorina Nowill viu as grandes possibilidades da vida

Pedagoga, que morreu nesta semana aos 91 anos, foi exemplo de superação. Pessoas têm que se fazer merecer e lutar pelo que lhes é devido.
Os ditados populares são cheios de sabedoria. Um muito conhecido diz que o pior cego é aquele que não quer ver. Eu completaria: e que não pode ver.
Trocadilhos à parte, é claro que não estamos falando da pessoa que tem falta real de visão. Essa não pode mesmo ver o mundo concreto. O que não a impede de percebê-lo de outras maneiras: pelo tato, audição, olfato, paladar, imaginação e... emoção.
Penso que não enxergar é algo bastante trágico e que impõe grande restrição ao ser humano. Apesar disso, mesmo essas pessoas quebram recordes e nem sempre se limitam à sua condição. Fazem de seu estado algo que dê significado às suas vidas. E, invés de se tornarem reféns dela, são ativos na construção de sua história.
Em contrapartida, há aqueles que diante do menor problema se curvam e permitem (sim, permitem!) que comande sua vida. Às vezes, possuem alguma característica bastante limitante, como uma paralisia, por exemplo. Diante dela, engessam toda a vida, culpando sua situação por tudo aquilo que é. Passam a vida se lamentando e se limitando. Esquecem-se de que não se reduzem àquilo que não possuem. Isso não só no aspecto físico, mas no social e material também.

Exemplo
Se para alguns a vida não passa de um fardo, outros a veem de maneira diferente, mesmo não enxergando há mais de 70 anos: "É preciso encarar a vida como ela aparece. Não se pode disputar com a vida". Esse é o conselho dado por Dorina Nowill, cega desde os 17 anos, e que morreu nesta semana.
Sua história é bem interessante. Na década de 30, Dorina ficou cega de repente. Em quatro meses, não enxergava mais o mundo físico, o que não a impediu de ver longe, muito longe. Não desistiu de viver.
Estudou, especializou-se no exterior e se casou. Sentindo na pele as dificuldades do deficiente visual, lutou incessantemente por ele. Expandiu a literatura em braille em nosso país e colaborou com mudanças de leis em relação ao deficiente, como tornar obrigatória sua educação no Brasil.
Comandou de 1946 até os dias de hoje a Fundação Dorina Nowill para cegos. Nem a idade avançada tirou-lhe o entusiasmo e a força. Isso tudo, criando uma família de cinco filhos.
Sem dúvida, ela é um exemplo de superação. Ela fez o que a maioria, tendo condições muito mais favoráveis, não é capaz de fazer. Provavelmente, ela tinha uma grande força de vida. Devia ser alguém muito especial.
Pessoas com limitações físicas devem sofrer muito. Além de lidarem com o preconceito que ainda existe em relação ao que é diferente, o mundo é todo organizado para aqueles que têm todas as suas funções a pleno vapor. Sem ir longe, é só lembrarmos das dificuldades que as pessoas canhotas enfrentam.
Mas as coisas podem e devem ser diferentes se essas pessoas não tiverem preconceito em relação a si mesmas e não acharem que são menos e que merecem menos. Como todos, elas têm que se fazer merecer e lutar pelo que lhes é devido.
Vamos fazer do exemplo de Dorina um exemplo para todos nós. Ela pode ver o que muitos ainda não conseguem, tendo cem por cento de visão: as grandes possibilidades que a vida nos oferece.

Primeira propaganda política da história do Brasil

http://veja.abril.com.br/multimidia/video/primeira-propaganda-politica-da-historia-do-brasil

Conheça as três famílias de cerveja

http://veja.abril.com.br/multimidia/video/conheca-as-familias-de-cervejas

Nelson Motta - Crenças e crentes

O Estado de S.Paulo
Com 96% de aprovação popular, mais gente acredita em Lula do que em Deus. Só uns 7% dos brasileiros são ateus, segundo o IBGE. Com a margem de erro, humano, há um empate técnico entre o cara e O Cara de todos os caras. Como dizia o companheiro Bush, quem não está com ele, está contra ele.
Mas nem no IBGE se pode levar muita fé. Eu, por exemplo, não fui entrevistado por nenhum recenseador nos últimos 25 anos. Estatisticamente, não existo. Vão dizer que o IBGE é de padrão internacional, tem não sei quantos anos de serviços prestados, com absoluta credibilidade, e agora é tudo tecnodigital de última geração. Acredito. Aguardo sua visita.
Em Cuba, acredita-se piamente, sem dar um pio, que qualquer crítica ou dissidência seja considerada, e punida, como traição. Qualquer oposição estará sempre a soldo da CIA e do império: só por dinheiro alguém teria motivos para criticar a revolução. Fidel é nosso pastor e nada nos faltará, rezam eles há 50 anos. Mas falta tudo, por culpa do satânico bloqueio ianque e da campanha midiática internacional. Milhões creem nisso, são (anti)milagres da fé. Fidel acredita que Osama Bin Laden trabalhava para George Bush e que o 11 de Setembro foi uma armação dos dois.
Como Fidel, Hugo Chávez não tem adversários ou opositores - tem inimigos. O coronel não aceita qualquer forma de oposição, são todos "esquálidos", burgueses e oligarcas. É nós contra eles, é socialismo ou muerte, mas metade do país não acredita nele. Chávez, católico, acredita que Jesus Cristo era bolivariano.
O bispo Macedo tem milhões de seguidores, felizes por pagar seus dízimos. Como não são idiotas, certamente permanecem na igreja se de alguma forma a sua vida está melhorando, se a fé está funcionando. É uma religião de resultados, no livre mercado das crenças. Sem impostos.
Crescem os crentes da Igreja Lulista Brasileira, onde a fé se junta ao oportunismo, o crime pela causa não é pecado e oposição é sacrilégio. Em sua teologia, satanás é substituído pela elite e exorcizado pelos seus bispos, cada vez mais ricos e poderosos.
Para Platão, a crença é o oposto do conhecimento.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Deus é desnecessário para explicar a criação, diz Hawking

O Estadão
Deus não criou o Universo e o Big Bang foi uma consequência inevitável das leis da física, argumenta o eminente físico teórico Stephen Hawking em um novo livro.
Em The Grand Design (O Grande Projeto, em tradução literal), que tem como coautor o físico americano Leonard Mlodinow, Hawking diz que uma nova série de teorias torna o conceito de criador do Universo redundante, de acordo com o jornal britânico Times.
"Porque existe uma lei como a gravidade, o Universo pode e deve criar-se a partir do nada. Criação espontânea é a razão para haver alguma coisa em vez de nada, para que o Universo exista, para que nós existamos", escreve Hawking. "Não é necessário invocar Deus para acender o pavio e pôr o Universo em movimento".
Hawking, com 68 anos, ganhou notoriedade mundial com seu best-seller de 1988, Uma Breve História do Tempo, um relato da história do Universo, e é renomado no meio científico por suas teorias sobre buracos negros, cosmologia e gravidade quântica.
Desde 1974, o cientista trabalha para casar as duas pedras angulares da física - a Teoria da Relatividade Geral, que trata de fenômenos de larga escala e da força da gravidade, e a Teoria Quântica, que cobre as interações entre partículas subatômicas.
Seu comentário mais recente sugere que ele rompeu com seu ponto de vista anterior sobre a religião. Antes, ele havia escrito que as leis da física apenas diziam que não era preciso acreditar numa intervenção divina.
Em Uma Breve História..., ele escreveu que uma teoria completa da física permitiria "conhecer a mente de Deus".
Em seu último livro, ele diz que a descoberta, em 1992, de um planeta em órbita de outra estrela além do Sol ajudava a desconstruir a visão de que o universo não poderia ter surgido do caos, mas foi criado por Deus.
"Isso faz as coincidências de nossas condições planetárias -- um único Sol, uma combinação de sorte de uma distância entre a Terra e o Sol e a massa solar, muito menos impressionante, e evidência muito menos convincente de que a Terra foi criada cuidadosamente apenas para agradar aos seres humanos", diz ele no livro.
Hawking consegue falar apenas por um sintetizador de voz computadorizado, em decorrência de uma neurodistrofia muscular que avançou nos últimos anos e o deixou quase completamente paralisado.
Ele começou a sofrer da doença em seus 20 e poucos anos, mas conseguiu se estabelecer como uma das maiores autoridades no mundo científico. O físico também teve participação especial no seriado "Jornada nas Estrelas" e nos desenhos animados "Futurama" e "Os Simpsons".
No ano passado ele anunciou que estaria deixando o cargo de professor lucasiano de matemática na Universidade de Cambridge que mantém desde 1979. O posto já foi anteriormente assumido por Newton.
O livro tem lançamento internacional marcado para 7 de setembro.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Jornal do Brasil' circula em papel pela última vez

O ESTADÃO
Circula hoje pela última vez a edição impressa do Jornal do Brasil, fundado há 119 anos, no Rio de Janeiro. De agora em diante, o JB terá apenas a versão na internet, um recurso para superar os problemas financeiros da empresa. O passivo acumulado chega a R$ 800 milhões, em dívidas trabalhistas e fiscais.
A crise financeira se agravou na década de 90 até que, em 2001, a família Nascimento Brito arrendou a marca JB para a Docasnet, empresa de Nelson Tanure. No ano passado, outra marca de jornal arrendada pelo empresário, a Gazeta Mercantil, também deixou de circular.
Na sua página na internet, o JB - que chegou a tirar 230 mil exemplares aos domingos no fim dos anos 60 - lista 50 pontos sobre a nova fase do jornal. Num deles, se vangloria de ser o primeiro jornal 100% digital, garante que 150 pessoas estarão envolvidas no processo digital e que "o Jornal do Brasil está caminhando para uma nova e melhor fase". Mas, na Redação, o clima era de luto. Dos 50 jornalistas que trabalham na casa, só 10 devem ficar na versão digital. Procurado pela reportagem, o empresário Nélson Tanure não quis falar.
Pedro Grossi, que presidia o jornal, foi contra a decisão de acabar com o jornal em papel. "Não posso avaliar nem fazer juízo sobre a opinião do dono. Ele acha que o tecnológico será mais lucrativo", lamentou. Segundo Grossi, o jornal estava com tiragem de 30 mil exemplares (desde 2008, o JB não era auditado pelo Instituto Verificador de Circulação, IVC). As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Elefante será declarado "patrimônio nacional" na Índia para protegê-lo

PORTAL UOL
Com o objetivo de reforçar as medidas de proteção aos elefantes, em breve o animal será declarado "patrimônio nacional" na Índia, informou nesta terça-feira (31) o titular do Ministério do Meio Ambiente indiano, Jairam Ramesh.
"Foi parte de nosso patrimônio durante séculos", por isso "temos de dar importância similar à do tigre", disse Ramesh em declarações citadas pela agência indiana Ians.
O Ministério de Meio Ambiente recebeu hoje o relatório de um grupo de trabalho com uma agenda de ação para preservar esses animais.
Em seu relatório, o grupo pediu a criação de uma autoridade nacional de conservação do elefante (Neca, na sigla em inglês), similar a que existe para o tigre, com um aumento dos fundos destinados ao seu bem-estar e conservação.
"É preciso fazer uma emenda à Lei de Proteção da Vida Selvagem para colocar em prática a Neca. Apresentaremos essa emenda na sessão de inverno do Parlamento", acrescentou Ramesh.
60% DA ÁSIA
Segundo a Ians, na Índia vivem 60% dos elefantes da Ásia, 25 mil animais, dos quais 3.500 vivem em cativeiro.
A Índia iniciou o Projeto Elefante em 1992 para proporcionar ajuda técnica e financeira aos Estados indianos com presença desses paquidermes, para proteger o habitat.
No país morreram nos últimos anos centenas de pessoas vítimas de ataques de elefantes, devido à crescente ação humana em áreas tradicionais de presença destes animais.

Na Copa à moda brasileira, um presentão para Lula

Revista Veja
As circunstâncias que cercam a definição do palco paulista na Copa do Mundo de 2014 são como um cardápio do que há de pior na gestão pública brasileira – e confirmam os mais graves temores dos que hesitam em festejar a realização do evento no país. Conforme revelou o presidente do Corinthians em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, o projeto do estádio candidato a receber a abertura da maior competição esportiva do planeta foi aprovado no escuro – nem a CBF nem os governos federal, estadual e municipal viram uma maquete ou planta que fosse.
A escolha foi questão de princípios – ou da falta deles. Hoje, o “Fielzão” pode ser não mais que um desenho feito no computador e um terreno lamacento no extremo leste da maior cidade do Brasil. Não cumpre os requisitos técnicos da Fifa – até porque ainda não existe -, mas atende às exigências de Ricardo Teixeira – afinal, não pertence ao São Paulo, clube que ousou descumprir os desejos do dirigente que é dono do futebol brasileiro há duas décadas. Não é a opção mais segura do ponto de vista econômico, mas é a que aquece o coração de Luiz Inácio Lula da Silva, que se prepara para descer a rampa do Planalto carregando um presentão ao time que escolheu para torcer – cortesia da Odebrecht, que já arma as fundações de sua próxima grande obra, a coleção de encomendas que espera receber num possível governo de Dilma Rousseff.
O ministro do Esporte, Orlando Silva, que repetia à exaustão que reformar o Morumbi sem dinheiro público era a melhor alternativa, agora acha que o Corinthians “salvou a Copa” para os paulistas. Só não falou sobre o dinheiro público que será gasto para aprontar a infraestrutura ao redor do estádio – e sobre o financiamento camarada esperado do BNDES. E a oposição, que ocupa a prefeitura e o governo do estado, abre mão do compromisso público de fazer o Mundial em São Paulo sem os mesmos exageros que marcam projetos fadados à obsolescência, como os das sedes de Natal e Cuiabá.
Preferiu entrar no jogo político que antes condenava e antecipar o anúncio do estádio do Corinthians para evitar que Lula pudesse transformar a apresentação do projeto – antes prevista para uma festa que teria o presidente como convidado de honra – num trunfo para colher mais alguns votos ao seu candidato ao governo do estado mais rico da União. A Copa à moda brasileira, como se vê, começou quatro anos antes do pontapé inicial do primeiro jogo do torneio, marcado para um estádio que ninguém sabe como será.
Do blog: São Paulo por sua importância econômica e principalmente pela grandeza do seu futebol precisava ter mais um estádio. O Palmeiras reforma sua arena, o São Paulo tem o seu estádio, o Santos tem a vila (que precisa de reforma e ai acontecer mais cedo ou tarde) faltava o Corinthians ter o seu, que com a Copa-14 poderá realizar tão esperado sonho. Fica apenas a dúvida quanto a maneira que será feito. A política já aparece como sugadora de recursos. Lula quer fazer campanha com o Corinthians e trocar a obra do estádio pelas futuras obras do país para a Odebrecht, num escândalo de corrupção de cartas marcadas e que já acontece a tempos no Brasil e ninguém nunca faz nada. A dança política já começou e infelizmente veremos milhões de torcedores corinthianos aplaudindo um governo e uma obra que sairá de seus próprios bolsos para enriquecer políticos e empresários corruptos, quando deveriam lutar por uma obra honesta e com dinheiro de investimento privado e não com recursos públicos. Vamos torcer para que o Corinthians tenha seu estádio, de maneira que não precise usar dinheiro do povo. Assim futuramente não precisará ouvir de sãopaulinos e palmeirenses que fez ou ganhou o estádio com dinheiro sujo.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Por Denis Russo Burgierman - O ataque das árvores voadoras

Se você fosse um extraterrestre voando de espaçonave na alta atmosfera do Planeta Terra há 100 mil anos atrás o que veria abaixo de você seria muito azul do oceano, muito branco dos pólos, um tanto de amarelo avermelhado dos desertos e imensas extensões de um verde felpudo: as árvores.
Se voltasse 50 mil anos depois, veria mais ou menos a mesma coisa. E não seria muito diferente a paisagem na janela se você cruzasse o céu no tempo do avô do seu tataravô.
Mas, se você fosse passear de disco voador hoje, veria uma mudança bem fácil de notar: o verde felpudo está acabando. Hoje há apenas metade das 800 bilhões de árvores que havia há cento e poucos anos. Para onde foram as árvores?
Elas desmaterializaram-se.
Foram queimadas para produzir energia. Foram transformadas em papel e depois descartadas para apodrecer nos aterros sanitários.
Desmaterializaram-se, mas não sumiram. Afinal, desde o tempo de Lavoisier se sabe que nada desaparece: as coisas mudam de forma. Nossas árvores, transformadas em gás carbônico (fumaça) e gás metano (do lixo), estão neste exato momento flutuando sobre a sua cabeça, prezado leitor.
Óbvio que isso traz consequências para o clima. Ou você acha que 400 bilhões de árvores gasosas voando na atmosfera passam despercebidas? Óbvio que essas gases fazem diferença no ar que respiramos, no equilíbrio das correntes de ar, na dinâmica do transporte de umidade, na transmissão de calor. No clima.
Lógico também que a ausência dessas árvores faz falta cá embaixo na terra. Ao arrancá-las, o que deixamos foi terra exposta. Exposta, ela escorre para os rios, gerando assoreamento. Ela é fritada pelos raios de sol, o que mata nutrientes. Ela se saliniza, perde a fertilidade. Ela é compactada e torna-se impermeável. Ela é comida pela erosão. Ela dá à luz desertos.
Aí a atmosfera mudada pelas árvores voadoras (e também pelo petróleo queimado) acaba explodindo com mais frequência em tempestades, nevascas, furacões, tufões, ondas de calor. E tudo isso acaba carcomendo ainda mais o solo exposto. E os rios, entupidos pelo assoreamento, não dão vazão às chuvas cada vez maiores. E nossas cidades se acabam em enchentes, deslizamentos, falta d’água, epidemias.
Tudo isso é causado pela desmaterialização das árvores.
O que me faz pensar…
A solução é simples: rematerializem as árvores!
Tirem-nas da atmosfera e fixem-as novamente no solo. Uma árvore, quando cresce, suga as árvores voadoras da atmosfera. Cada árvore nova no chão é uma árvore voadora a menos no ar.
As árvores rematerializadas vão segurar e proteger o solo de novo. E os rios voltarão a correr.
E, se por acaso algum ET atento voar pelo céu de espaçonave e olhar para baixo pela janela, vai anotar no diário de bordo:
– Está tudo certo aqui de novo.

Por Denis Russo Burgierman - Um novo modelo produtivo

Eu tenho falado de passagem nas últimas semanas de como poderia ser um novo modelo de produção, que substitua o atual, que obviamente está falido. Hoje eu quero entrar um pouco mais fundo nessa discussão. Mais uma vez, vou citar o livro “Cradle to Cradle” (“berço a berço), de William McDonough e Michael Braungart, que acho uma obra fundamental.

Bom, a mudança básica que o livro propõe é bem simples: substituir um sistema linear por um circular. Hoje é:

recursos > produtos > resíduo

O que obviamente nos deixa com cada vez menos recursos e cada vez mais resíduos. Os autores querem que seja:

………..recursos
………/ \
resíduos – produtos

Em outras palavras, trocar um sistema que vai “de berço a túmulo” por outro que vai “de berço a berço”, de maneira que a economia continue girando bonitona mas a Terra não seja consumida no processo.
O legal do livro é que um dos autores é arquiteto e o outro é químico. Juntos, os dois têm conhecimento bem aprofundado sobre como as coisas são: da relação das pessoas com o espaço aos processos industriais. Com essa visão abrangente do mundo eles conseguem perceber com clareza o quanto nosso sistema atual é ineficaz.
Quando fabricamos um produto, nossa única preocupação é como chegar ao consumidor. Ninguém quer nem sabe se os produtos químicos usados são voláteis e cancerígenos. Ninguém nem liga se, após o uso, o negócio vai ter que passar 300 mil anos ocupando espaço num aterro sanitário. Ninguém se interessa pelo que acontece depois.
O resultado disso é que produzimos lixo numa quantidade que supera qualquer outro produto. E esse lixo é uma mistureba de milhares de substâncias diferentes – tão bem misturadas que é impossível recuperar qualquer coisa. Já que não dá para reaproveitar, toca a retirar mais recursos da natureza.
Para resolver esse problema, o livro propõe uma divisão básica entre as matérias-primas que a humanidade emprega. Há apenas dois tipos: aquelas que são “nutrientes biológicos” e as que são “nutrientes técnicos”. Nutriente biológico é matéria orgânica, que pode ser digerida e reintegrada aos ecossistemas. Nutriente técnico é aquele que, mesmo após o uso, continua tendo valor para a indústria. Por exemplo: metais e outros materiais valiosos. Nutriente biológico alimenta o metabolismo biológico, nutriente técnico alimenta o metabolismo técnico.
A coisa mais importante é separar um tipo de nutriente do outro, para que continue disponível ao respectivo metabolismo. Só que, hoje em dia, quase todos os produtos que você encontra no supermercado misturam ambos. O resultado é uma contaminação que torna impossível o reaproveitamento. Complicado? Talvez dois exemplos simples ajudem a tornar mais concreto:
– exemplo 1 – todas as embalagens de alimentos poderiam ser feitas de “material comestível”. Comestível por gente ou mesmo pelo jardim. Não há nenhuma razão para uma bolacha que é comida em 3 segundos deixe na Terra uma embalagem que ainda vai existir quando o seu tatatatatatatatatataraneto vier ao mundo. A embalagem poderia ser projetada para durar só um pouquinho mais do que o produto. Depois, quem sabe, você pode jogá-la no mato e ela vira nutriente para a terra. Para isso, claro, não dá para contaminar a embalagem (nutriente biológico) com metais pesados (nutriente técnico).
– exemplo 2 – a indústria de produtos eletrônicos poderia criar um sistema de “leasing de material”, em vez do sistema atual. Em vez de comprar uma televisão, você compra 10 mil horas de direito de usar os materiais que fazem uma televisão (nutrientes técnico). 10 mil horas depois, um sujeito vai à sua casa, pega a TV, leva para a fábrica, desmonta e cada mínimo pedacinho é reaproveitado para fazer uma nova TV, muito mais avançada. Você sai ganhando: vai ficar bem mais barato. A indústria sai ganhando: seus custos e riscos diminuirão astronomicamente ao não ter que financiar a mineração de centenas de minerais. E quem sabe quanta coisa legal pode ser feita nas áreas onde hoje estão as minas.

Interessante, não é?

As imagens falam para aqueles que não querem enxergar

http://www.youtube.com/watch?v=j_HWHFrrkxg&feature=player_embedded

Um risco oculto das fotos de celular: os geomarcadores

Revista Veja
Fotos divulgadas na internet podem revelar o lugar exato onde foram tiradas e assim pôr em risco, sem que você saiba, sua segurança e privacidade
Quando Adam Savage, apresentador do popular programa científico MithBusters, publicou no Twitter uma foto de seu carro estacionado em frente a sua casa, permitiu que seus seguidores se inteirassem de diversas particularidades de sua vida, muito além do fato de ele dirigir um Toyota Land Cruiser.
A imagem tinha um geomarcador, um bit de informação sobre a longitude e a latitude do local onde a fotografia foi feita. Portanto, revelou exatamente onde Savage vivia. E já que o texto que acompanhava a imagem era: "Agora, ao trabalho", os ladrões potenciais sabiam que sua casa estava vazia.
Especialistas em segurança passaram recentemente a alertar sobre o perigo potencial dos geomarcadores inseridos em fotos e vídeos de smartphones e câmeras digitais com GPS. A preocupação é que a maioria das pessoas desconhece a funcionalidade, o que pode comprometer a privacidade e a segurança.
Savage disse conhecer os geomarcadores (melhor para ele, como apresentador de um programa popular entre amantes da tecnologia). Mas disse que não quis desabilitar a função de seu iPhone antes de tirar a fotos e publicá-la no Twitter. "Creio que foi uma falta de preocupação porque não sou nem remotamente famoso para merecer que me assediem", assinalou. "E se eu sou, então quero um aumento de salário."
No entanto, desde então, Savage preferiu desativar a função de geomarcador em seu iPhone, e não se preocupa com a foto no arquivo do Twitter porque se mudou para outra casa. Mas outras pessoas talvez não tenham tanto conhecimento tecnológico nem sejam tão indiferentes com sua privacidade.
"Diria que poucas pessoas sabem do alcance dos geomarcadores", afirma Peter Eckersley, da Electronic Frontier Foundation, em São Francisco. "E o consentimento é um terreno escorregadio quando a única forma de desabilitar a função em seu Smartphone é por meio de um menu invisível que ninguém conhece realmente."
De fato, desativar a função do geomarcador geralmente requer superar vários menus até encontrar a configuração de ‘localização’, para depois selecionar ‘apagar’ ou ‘não permitir’. Isso algumas vezes pode desabilitar todas as funções de GPS, incluindo mapas.
A página da internet ICanStalkU.com oferece instruções passo a passo para desabilitar a função de geomarcador de fotos em aparelhos iPhone, BlackBerry, Android e Palm.
Um punhado de pesquisadores acadêmicos e analistas independentes de segurança na internet, autodenominados "hackers de chapéu branco", buscam informar a todos sobre os geomarcadores. Eles publicam estudos em redes sociais como Twitter, YouTube, Flickr e CRaiglist, e apontam como é possível identificar a casa e gostos de uma pessoa.
Muitas das fotos mostram crianças jogando dentro ou ao redor de suas casas. Outras revelam automóveis caros, computadores e televisores de tela plana. Também há fotos de pessoas na casa de amigos ou no Starbucks que frequentam todas as manhãs.
Descarregando plug-ins gratuitos de navegação como ExifViewer, para Firefox, ou Opanda IExif, para Explorer, qualquer um pode identificar onde se tirou uma foto e criar um mapa no Google.
Além disso, como sites multimídia como Twitter e YouTube têm interfaces de programação de aplicações (API) amigáveis, alguém com pouco conhecimento sobre programação pode criar um programa para buscar fotos com geomarcadores. Por exemplo, podem buscar as que estejam acompanhadas com frases como "em férias" ou as tomadas em vizinhanças específicas.
"Qualquer jovem de 16 anos que tenha conhecimentos básicos de programação pode fazer isso", disse Gerald Friedland, pesquisador do Instituto de Computação da Universidade da Califôrnia, em Berkeley. Friedland e seu colega Robin Sommer escreveram o documento Cybercasing the Joint: On the Privacy Implications of Geotagging, que apresentaram esta semana em Washington.

Turismo eletrônico - Contrate um guia-amigo na internet

Revista Veja
Não é fácil conhecer uma nova cidade sem um guia local. Para dar uma mão aos turistas carentes, sites como o Rentafriend.com e o Rentalocalfriend.com decidiram oferecer um serviço inusitado e útil, adequado aos tempos de internet e redes sociais: a "locação" de guias-amigos via web.
Para conhecer a ferramenta e entender como funciona o serviço, a reportagem de VEJA.com contratou um desses guias no Rio de Janeiro. O site escolhido para o teste foi o Rentalocalfriend.com, cuja dona é uma brasileira. Alice Moura, de 28 anos, colocou a ideia em prática em 2008 e atualmente, 150 locações depois, já atende 22 cidades no mundo - entre elas São Paulo e Rio.
Os guias são escolhidos a dedo. Segundo a dona do serviço, cerca de 80% das pessoas "disponíveis para locação" são suas amigas ou amigas de suas amigas.
O formato dos dois serviços é diferente. No Rentafriend.com, é preciso pagar uma mensalidade para fazer parte da comunidade e "alugar amigos". Já no caso do Rentlocalfriend.com, basta consultar os valores no site e escolher o pacote adequado (meio dia ou dia inteiro). Escolhemos meia diária e pagamos pelo "colega" 140 reais.

Em busca de outras "Terras"

Revista Veja
O astrônomo Roger Bladford explica por que recomendou aos EUA que gastem muito dinheiro na busca de planetas similares à Terra e invistam ainda mais para tentar dobrar as leis da Física e levar o homem até eles
Se tudo der certo, a Nasa vai passar os próximos 10 anos ligada no centro da Via Láctea. Por causa da grande concentração de estrelas, a comunidade científica americana acredita que lá é o lugar mais provável para encontrarmos planetas parecidos com a Terra e, quem sabe, seres extraterrestres. Mas para isso, o relatório feito pelo comitê de cientistas da academia de ciências dos EUA precisa receber o aval do congresso americano e da Nasa.
A cada 10 anos, a academia de ciências dos Estados Unidos faz uma triagem de todos os projetos envolvidos com astronomia e astrofísica do mundo e faz um relatório para governo americano recomendando em quais pesquisas deve investir na próxima década. O relatório de 2010-2020 foi entregue na segunda-feira (16) pela Academia Americana de Ciências.
VEJA.com conversou com o britânico Roger Blandford, diretor do instituto de astrofísica e cosmologia da Universidade de Standford nos EUA. Ele teve a homérica tarefa de chefiar o comitê que redigiu o relatório e que, na prática, apontou a direção que a nação mais poderosa do mundo deverá seguir nos próximos 10 anos dentro do campo da pesquisa espacial.
O comitê chefiado pelo britânico sugeriram à Nasa e ao governo dos EUA gastar 1,6 bilhão de dólares em um telescópio que já tem até nome, WFIRST, previsto para ser lançado em 2020. Se for aprovado, vasculhará o centro da Via Láctea atrás de planetas parecidos com a Terra. Blandford conta como esses planetas podem ser localizados e o que faremos se encontrá-los.

O que seria um planeta parecido com a Terra?
Seria um planeta que provavelmente tem o mesmo tipo de massa que a Terra. Na verdade, usamos o termo "habitável". Isso significa que a estrela que ilumina o planeta seria parecida com o nosso Sol ou um pouco mais fria - o que o faria mais fácil de ser encontrado. E outra característica é que, se ele for habitável, gostaríamos de ver sinais de água e possivelmente oxigênio e gás carbônico. Ele precisaria ter condições físicas — gravidade, pressão, atmosfera — semelhantes aos da Terra. Um lugar onde a vida poderia se desenvolver de uma maneira análoga ao que acontece em nosso planeta.

Por que é tão importante encontrar planetas parecidos com a Terra? Por que agora?
É um assunto que fascina o homem e algo que combina o interesse popular-científico para responder a pergunta "estamos sozinhos nesse universo?". O momento é agora porque houve uma explosão de descobertas nessa área durante a última década. Há mais ou menos 10 anos, começamos a identificar os primeiros planetas fora do sistema solar, depois de muito esforço e muitos anos tentando.

Algum planeta parecido com a Terra já foi identificado?
Não. Na última década descobrimos quase 500 planetas fora do sistema solar. Nos últimos meses, 300 candidatos foram apresentados a nós, observados pelo telescópio Kepler. Nem todos os candidatos serão considerados verdadeiros, mas acreditamos que uma boa parcela será.

Algum está em um sistema parecido com a nosso?
Já conhecemos um grande número de planetas fora do sistema solar e duas mensagens estão bem claras — uma é que eles são comuns e a outra é que os sistemas planetários em volta de outras estrelas são muito diferentes. Eles não são cópias do que acontece em nosso sistema solar. Longe disso. Vemos muitos tipos de planetas e muitos tipos de ambientes diferentes. Ainda não encontramos, mas estamos chegando perto.

E por que é tão difícil identificar planetas fora do nosso sistema solar já que eles são comuns?
Eles são comuns, mas são muito apagados. A metáfora mais fácil para entender a dificuldade que encontramos em identificar esses planetas seria procurar por um mosquitinho voando bem próximo de um poste que emita bastante luz enquanto se observa de muito longe. Imagine uma estrela muito brilhante e um ponto muito pequeno que reflete essa luz, o planeta que estamos procurando. O problema pode nem ser o brilho da estrela, que pode ser filtrado até certo ponto, mas pode existir tanta poeira espacial na região que fica difícil identificar esses planetinhas. É só você lembrar que a Terra possui um trilionésimo da massa do Sol — e a trilhões de quilômetros de distância desses sistemas fica dificílimo realizar essas análises.

E como vamos fazer isso agora?
Uma das funções do telescópio WFIRST será executar as tarefas que outro telescópio, o Kepler, não consegue fazer. Ou seja, ele não vai procurar por planetas habitáveis por meio de imagens — isso o Kepler já faz —, mas ele irá estabelecer a frequência desses planetas. Isso vai nos dizer quantas estrelas como o nosso Sol possuem planetas parecidos com Saturno, Júpiter e a própria Terra. Além disso, quantos desses estão orbitando próximos à estrela ou longe e assim por diante. Queremos saber se haverá uma órbita parecida com a da Terra — se o planeta estiver muito longe da estrela, será muito frio, e muito perto, bastante quente. Nenhum desses casos resultaria em um planeta parecido com a Terra. Temos que encontrar um que esteja orbitando uma estrela parecida com o nosso Sol a uma distância semelhante a Terra.

E se encontrarmos um planeta assim, o que vamos fazer?
A ideia é conseguir imagens desse planeta e estudá-lo esgotando todas as formas possíveis. Além de tirar fotos detalhadas, teremos que tirar um espectrograma completo do planeta [Espectrograma é o levantamento das características físico-químicas de determinado corpo celeste por meio da análise da energia que ele emite]. Vamos tentar descobrir se existem moléculas desconhecidas para o homem. Mas antes de prepararmos essas observações temos que saber o que estamos procurando. E para isso, ainda é preciso desenvolver muita pesquisa.

Quais são as chances de encontramos uma outra civilização humana vivendo em um planeta parecido com a Terra? É isso que estamos procurando?
Acredito que a procura de inteligência extraterrestre causa uma grande fascinação pública e científica. Já temos alguns telescópios capazes de identificar algumas classes de sinais extraterrestres. Existem muitos telescópios que fazem um tipo de pesquisa passiva. Eles realizam as tarefas normais e dentro delas é possível extrair certas classes de sinais. Se considerarmos seriamente que há vida inteligente fora da Terra e que ela envia algum sinal — são duas coisas diferentes — que tipo de sinais eles nos enviariam? Como eles iriam tentar entrar em contato conosco? Existem tantas respostas possíveis para essas perguntas que é difícil pensar sobre o assunto. Na minha opinião, a melhor estratégia é estar sempre alerta. Ter isso sempre ocupando algum lugar em nossos pensamentos. Não existem muitos telescópios desenvolvidos para encontrar sinais estranhos, eles não teriam muita utilidade científica. Basta que fiquemos de olhos bem abertos.

Existem missões específicas para identificar esses sinais?
Não acredito que seja fácil desenvolver um programa coerente para procurar e reconhecer esses sinais, se é que eles existem. Existem muitas pessoas tentando fazer isso, mas não sei dizer se elas vão conseguir. É um dos grandes mistérios da vida, tenho a mesma curiosidade que qualquer pessoa, mas não acredito em nenhuma das duas coisas — que existe ou não existe — eu realmente não sei! Mas essa é a graça, teremos que esperar e ver o que acontece.

Os humanos enviam sinais que poderiam ser reconhecidos por alienígenas?
Com certeza! Enviamos sinais o tempo todo. Todos esses programas de TV são transmitidos para o espaço. A TV é o tipo de sinal mais comum, mas pode ser qualquer outro. Existem muitos outros tipos de comunicação acontecendo localmente e a maioria das ondas vai parar no sistema solar e até fora dele. Não sei se existem alienígenas tentando detectá-las, mas estamos emitindo sinais o tempo todo.

Se a comunidade científica não tivesse que se preocupar com dinheiro, quais missões seriam adicionadas ao relatório?
O número de missões que gostaríamos de incluir no relatório é 10 vezes maior do que qualquer orçamento poderia suportar. Contudo, é justo dizer que os 90% que ficaram de fora requerem um desenvolvimento tecnológico pesado.

Quais são os projetos que poderão ser escolhidos a partir de 2020?
Eu diria que existem dois candidatos muito fortes — um telescópio focado na espectroscopia, chamado IXO — e uma missão principal concentrada no estudo de planetas habitáveis próximos ao sistema solar.

Depois que encontrarmos um planeta habitável, será possível viajar até ele?
Bem, acho que a resposta é não. Trata-se de um problema com as leis da Física. Se eu disser, por exemplo, que o planeta habitável mais próximo está a 10 anos luz de distância da Terra, isso significa que, viajando a velocidade da luz, a jornada duraria 10 anos. Se viajássemos a metade dessa velocidade, levaríamos 20 anos. Agora, se considerarmos a velocidade máxima que conseguimos atingir no espaço com a tecnologia atual, ou seja, um milionésimo da velocidade da luz, é possível perceber como é difícil ter esperanças. Além de desenvolver uma nova tecnologia de viagem no espaço teremos que transcender as leis da Física. Não estamos lidando com tecnologia especulativa — de ficção científica ou coisas do tipo. Muitas pessoas têm ideias malucas sobre como vamos conseguir isso. As leis da Física são implacáveis e tudo que fazemos precisa ser extremamente bem entendido e testado. Dito isso, existem obstáculos sérios para atingirmos velocidades que nos levariam até esses planetas em algumas centenas de anos. Por isso, eu diria que não. Não vamos visitar esses planetas tão cedo, mas vamos trabalhar duro para que isso aconteça.

"O gás hélio está acabando", diz físico vencedor do Nobel

Revista Veja
Reservas estariam a 25 anos do esgotamento. Elemento é usado em equipamentos complexos e não tem substituto
Em entrevista à revista britânica New Scientist, Robert Richardson, vencedor do prêmio Nobel de Física em 1996 por seu trabalho com átomos do Hélio-3, disse que as reservas de gás hélio estão acabando, e que a solução é aumentar o preço. “Em 25 anos não teremos mais gás hélio”, afirmou.
O gás hélio é a segunda substância mais abundante do universo - 24% da massa da Via Lactea é formada pelo elemento - mas na Terra o único modo de obtê-la é através da exploração de rochas. A maior reserva do mundo, com um bilhão de metros cúbicos, fica nos Estados Unidos, e é controlada pelo governo americano, que mantém fixos os preços do gás.
O grande problema do fim do hélio não será o fim dos balões em festas de aniversário. Equipamentos de ressonância magnética, reatores nucleares e telescópios espaciais usam componentes que só podem ser resfriados com hélio líquido. Como é o elemento com menor ponto de ebulição, 267ºC abaixo de zero, não tem substituto. E também não é possível extraí-lo do ar a preços viáveis (Richardson fala em valores 10.000 vezes maiores que os atuais), nem produzi-lo artificialmente.
A solução, segundo Richardson, é tirar as reservas da esfera governamental e deixar os preços seguirem a lei da oferta e procura. “Provavelmente os balões de festa vão custar 100 dólares, não três dólares, mas teremos de viver com isso.”

Cientistas criam droga capaz de curar o ebola

revista veja Um time de cientistas financiados pelos Estados Unidos desenvolveram um remédio capaz de, pela primeira vez, tratar com alto grau de sucesso os infectados pelo vírus ebola e pelo vírus Marburg, ambos altamente letais e contagiosos. A pesquisa, divulgada nesta segunda-feira no períodico Nature Medicine, reportou a cura de 60% dos macacos infectados com o ébola e 100% dos infectados com o Marburg. Uma das drogas usadas chegou a 90% de cura do ebola.
O vírus do ebola tem, nas últimas décadas, provocado milhares de mortes em várias regiões da África. Dependendo do tipo de vírus, chega a matar 90% dos infectados. Entre macacos e gorilas, alguns deles ameaçados de extinção, a mortalidade é de 100%. Tanto o ebola como o Marburg causam febres hemorrágicas e podem ser transmitidos pelo contato com o sangue ou fluídos corporais das pessoas doentes.
Atualmente não existe nenhum tipo de remédio ou vacina disponíveis para o tratamento dos dois vírus. As drogas, desenvolvidas pelo Instituto de Pesquisas Médicas sobre Doenças Infecciosas do Exército dos Estados Unidos, em colaboração a AVI BioPharma, uma empresa de biotecnologia de Washington, impedem os vírus de se reproduzirem. O governo americano investiu 291 milhões de dólares na pesquisa, temendo o uso dos vírus como armas biológicas.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Como em Pompeia -Por Diogo Mainardi

Revista Veja

“Se Dilma Rousseff é igual a Ceium Secundum, ela é igual também a Cuspium Pansam. Seus cartazes de propaganda eleitoral, resgatados nas ruínas de Pompeia, aludiam exclusivamente à figura de seu padrinho”.

Ceium Secundum é igual a Dilma Rousseff. Melhor dizendo: Dilma Rousseff é igual a Ceium Secundum. Quem é Ceium Secundum? Ele é, antes de tudo, um morto. Ele morreu quase 2 000 anos atrás, quando as cinzas do Vesúvio soterraram Pompeia, em 24 de agosto de 79. Ele é, portanto, um morto e uma múmia. Além de ser um morto e uma múmia, Ceium Secundum, no momento da tragédia que matou todos os moradores da cidade, era candidato a um cargo público. Quando os arqueólogos italianos, no século XIX, desenterraram Pompeia, encontraram alguns de seus cartazes de propaganda eleitoral. Um deles dizia o seguinte:

Ceium Secundum para duoviro.
Seu pai o apoia.

É nisso que Ceium Secundum e Dilma Rousseff se assemelham. Tanto um quanto o outro só possuem um atributo eleitoral: o apoio de quem os gerou. O primeiro tem o apoio do pai, a segunda tem o apoio de Lula. Na última quarta-feira, em Paraty, Fernando Henrique Cardoso declarou que ninguém sabe o que Dilma Rousseff pensa porque ela nunca fala. Ela nunca fala porque ninguém quer que se saiba o que ela pensa. Ou pode ser que ela nunca fale porque nem ela sabe o que pensa. O que conta, para ela, é apenas quem a apoia. Dilma Rousseff para duoviro? Sim: melhor do que para presidente.
Se Dilma Rousseff é igual a Ceium Secundum, ela é igual também a Cuspium Pansam. Seus cartazes de propaganda eleitoral, resgatados nas ruínas de Pompeia, aludiam exclusivamente à figura de seu padrinho:

Cuspium Pansam para conselheiro.
Quem pede para votar nele é Fabius Eupor, o príncipe dos libertinos.

O padrinho de Dilma Rousseff, Lula, pede para votar nela. Na verdade, ele vem pedindo isso há mais de dois anos, num gesto de pura libertinagem eleitoral. Lula tem um grande senso de oportunidade. Se um sagui é capaz de escolher o momento certo para entrar pela janela da cozinha e pegar um cacho de bananas, Lula foi capaz de escolher o momento certo para atropelar as leis e apoiar sua candidata presidencial. Assim como Ceium Secundum e Cuspium Pansam, as múmias pompeianas, Dilma Rousseff sempre se manteve à sombra de alguém. Quando participava da luta armada, seu principal papel era o de mulher. Ela era a Amélia da VAR Palmares. Primeiro, casou-se com um terrorista. Depois, trocou-o por outro terrorista. Se Dilma Rousseff fosse iraniana, já estaria condenada à morte. O fato é que, de marido em marido, ela foi fazendo carreira na burocracia estatal, até chegar a Lula, que se tornou seu pai, seu padrinho. Ninguém sabe o que ela pensa porque ela nunca fala. O que se sabe é que, se ela for eleita daqui a dois meses, o Brasil será soterrado por cinzas ancestrais.